Com tão pouca idade e já tão arrogante, pensou a irmã mais velha. Era a mesma coisa em todo casamento que frequentavam. A irmãzinha via a pista e entrava em transe. Era possuída pelo espírito da Donna Summer. Queria arrasar no passinho e deixar todo mundo de queixo caído. Ainda que tivesse qualquer talento especial para a coisa, mas era só uma criança sem noção tentando arrasar numa tarefa que exigia mais treino e menos soberba.
Mas ela tinha dez anos e ninguém fica indiferente quando uma criancinha entra na pista e acha que está arrasando. Contanto que ela não ficasse parada no centro da pista, sempre conseguia algum aplauso. E, claro, era uma criança bonitinha. A indiferença não era uma opção.
E não tinha quem a convencesse a tomar aulas de dança. Nessa idade toda mãe quer que a filha faça balé ou jazz. A mãe pensou "já que ela gosta tanto de dançar, que pelo menos faça aula". A mãe dela era um tanto diferente, preferia que a filha tivesse se interessado por matemática ou algo assim, em vez do balé. Sabia que era a profissão do futuro, e nunca teve pretensão de ter filha menininha. A mais velha tinha se apaixonado por desmontar coisas desde cedo e hoje estava fazendo colégio técnico em eletrônica, pra orgulho do avô, que consertou videocassete e estéreo a vida toda na pequena Saudade, onde nasceu e se criou. Agora, a pequena, bem que podia ir trabalhar com informática, pensava a mãe. Garantia um futuro fazendo uma coisa inovadora.
Mas era assim: ela não queria aprender a dançar, porque já sabia. Pra que ter aula, se ela já estava com tudo? Se a professora fosse igual às da escola, que achava que podia ensiná-la a fazer tabuada, algo tão trivial e óbvio, então ela estava melhor dançando quando desse vontade. Ela tinha dez anos e esse talento todo, já estava polida e acabada. Era caso pra ganhar um prêmio, ou ter sua própria companhia de dança e se aposentar.
Por isso, ela entrou na pista de dança botando banca e sem um pingo de desconfiança de suas qualidades como dançarina. Ela não caía, não ficava em dúvida sobre o que fazer em seguida. Não importava qual era a música, ainda mais porque a coreografia era praticamente a mesma, a que ela mesma desenvolveu ao longo de quatro belos anos frequentando casamentos de família.
E assim ela ficou, dançando tão desengonçada e sem ritmo, mas com a plena certeza de que era a melhor dançarina daquela festa.